27 Novembro 2009

XIX - O Sol


Há tardes em que o Sol chega tão perto do chão que o horizonte fica trêmulo de calor. O verão é essa estação onde o Sol se aproxima da Terra para ver melhor a humanidade. Ele enxerga os homens mais ou menos como estes vêem as formigas: daqui pra lá, de lá pra ali sempre caminhando, inventando algo pra fazer. Ontem eles partiram em barquinhos para conquistar o outro lado do meu quintal, e hoje já passam voando para todos os lados. São mesmo a astúcia em pessoa essas figuras, diz a estrela.
O sol é antigo, não acha graça nos computadores e televisores, mas se diverte em ver o quanto os homens gastam seus segundos de vida pendurados neles. As invenções humanas dão eco à contradição dos seus desejos. Existem as de fazer caminhos e a de destruí-los, as de montar sonhos e outras de desmontá-los, as de dar vida e muitas outras de tirá-la. A humanidade em tudo mexe, a nada dá sossego, obstinada em fazer do mundo sua imagem e semelhança. Se eu prestar atenção, posso escutar o rumor do seu sonho de um dia me conquistarem, em mim ficarem sua minúscula bandeira, estandarte desse estranho bloco de carnaval. São mesmo formigas audaciosas, essas as quais observo.
Não é necessário carregar milhões de anos nas costas para entender que a vista vai se cansando com o tempo. A cada vez o Sol se aproxima mais das estranhas figuras nas quais põe os olhos e os homens verão, olhos nos olhos, o verão crescer. Enquanto uns despem suas roupas em homenagem a chegada dele outros praguejam e se escondem com suas máquinas de fazer frio. A humanidade é ingrata, comenta a estrela, não se une nem sequer para comemorar a chegada de quem lhe permite viver. E nisso segue calma para mais uma volta, só próximo ano vem ver de perto as curiosas formigas do seu jardim.

 João Gilberto Saraiva

15 Novembro 2009

Carta aos amigos

            Na verdade a idéia deste blog surgiu quando escrevi o primeiro mini-conto e a primeira crônica. De quando larguei os versos, minha casa segura, para entrar no mundo da prosa virtual. Ao invés de uma gaveta no meu quarto, visto apenas por alguns amigos próximos, o que escrevo agora mora neste pequeno endereço. É uma casa pequena, é verdade, mas é o começo de uma independência. As palavras deixaram de ecoar no pequeno mundo em que vivo para se soltar nessa cidade de ventos.
            Na rua em que agora moram, existem incontáveis vizinhos, dos dois lados, em cima, em baixo, nas laterais. Sem eles, essa vida na cidade seria tão sem graça que talvez não fosse possível. Sou um escritor de província, escrevo pensando em mostrar imediatamente aos meus amigos. Pessoas com as quais cruzei virtualmente ou não, mas que são de suma importância para continuar escrevendo. Um texto, para mim, tem pouco sentido se não for completado por um leitor que expanda seus significados.
            Muito obrigado a todos que lêem este blog. Um abraço especial para os que comentam e me indicaram este selo.

João Gilberto Saraiva.
-x-

1. Postar o selo.
2. Linkar quem te ofereceu o selo. 
3. Indicar dez blogs que não saem da sua cabeça.

4. Avisá-los que receberam o selo.
5. Listar dez coisas que não saem da sua cabeça.

 
 O selo foi indicado pelas seguintes amigos: Nathi e Gustavo Gabriel 

Blogs que não saem da minha cabeça
Brilhante (Gustavo Gabriel)
Dez.atinos (Micaela)
Isobel Figue (Stephanie)
O Recanto d'Ella (Gabriella)
Entrelinhas (Klécia Soares)
Mind (Vitória)
Assassinador de Poemas e Escritos (Félix Maranganha) 


Coisas que não saem da minha cabeça
Escrever um livro, O pêndulo de Foucault (Umberto Eco)
o consórcio da minha moto, juntar bufunfa pra uma viagem,  
terminar o curso de inglês que acabei de começar,
Voltar a correr, músicas que quero baixar mas não sei os nomes,
Passar o vestibular de minha namorada, escrever um artigo para meu curso (História)
Algo que pudesse completar essa lista com dez coisas.


PS: Tinha trocado os nomes de alguns autores dos blogs, mas já resolvi a confusão.

29 Outubro 2009

Olhos de mar - O início


           Antes não havia nada, sequer o escuro. Nem sequer uma palavra que nomeasse o que não existe. No princípio Deus criou os céus e a terra, dizem as letras sagradas. Parte desta sentença foi apagada não sei se por esquecimento ou por descuido. Talvez por não se entenderem, naquele tempo, o que dizia o resto da sentença e o seu fim foi apagado. Originalmente era ela: Então Deus criou os céus e a terra com o piano.
            A divindade estralou as mãos, se ajeitou no banquinho sem a cerimônia maiúscula que acompanha seu nome e começou a tocar. A terra estava informe e vazia, as trevas cobriam o abismo e o espírito santo de Deus pairava sobre as águas. Os dedos entram nas teclas com a delicadeza de quem sente entre os dedos uma uva gorda antes de levá-la a boca, apertando levemente sem esmagá-la. O som se cria, levanta do instrumento e se espalha pelas obras divinas recém-criadas tateando cada ínfima parte, descobrindo-as: fez-se a luz. As cordas do instrumento são tocadas levemente pelos martelos acompanhando os nuances do músico; as notas não alcançam tudo quanto foi criado. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas. Foram criados o dia e a noite e se passou o primeiro dia.


            Ele tocaria eternamente sem se preocupar com a finitude que acabara de ser criada. Ter criado o tempo era apenas uma idéia remota na mente divina que se concentrava na música. Mas havia um mundo por se fazer, ele sabe disso, você sabe: ele sabe tudo. Ele também tudo pode, mas quem tudo pode nem sempre quer, Deus queria tocar somente. As mãos se levantam um pouco, o som para de soar por um segundo, a respiração se escuta em todo lugar. As mãos iniciam uma nova música, cada mão originava uma melodia diferente. Os sons se completam e se conflitam como bocas que se mordem enquanto se beijam e vice-versa. Cada qual compunha um espetáculo a parte, e juntas fizeram um firmamento entre as águas, separando umas das outras.
             Outra parada, por um longo momento as mãos ficam inertes a alguns centímetros do teclado. Ele se levanta e põe os grandes olhos sobre a fenda. Com toda a leveza e força Deus coloca o piano em uma das partes e a outra se solidifica. Deus chamou o elemento árido de terra e ao ajuntamento das águas mar. E Deus viu que isso era bom. Depois de guardado o instrumento era hora de se continuar o trabalho.
João Gilberto Saraiva.
(Foto: Gustavo Gabriel)
PS: Primeira parte de um possível livro.

29 Setembro 2009

Alvorada




A brisa da manhã e a temperatura amena do início dela são logo sentidas por este homem que de costas fecha a porta. Como girassóis no jardim as antenas de TV olham em nossa direção e vêem o começo do salto diário do Sol sobre nossas cabeças. Sentado está o senhor de camisa azul, as mãos enrugadas e a calça gasta em contato com o parapeito. O prédio é mediano e sem luxo, é como um bolo de ovos: comum e sem cobertura. Dividindo o espaço com as antenas o homem acompanha quase todos os dias a cidade nascer.
            Escurecido pela sombra de um prédio em frente, um motociclista segue pela avenida. Para onde vai há essa hora? O relógio dá as horas e não tem tempo para um descanso, imagine os homens que nem as horas têm. Aquele só tem uma caixa na garupa, não há quem pergunte. O velho sentado apenas escuta o desaparecer do rastro sonoro. Já se fora também grande parte das rosas ressequidas com o que “ganharam” naquela noite, só algumas retardatárias ainda esperam o ônibus via periferia do outro lado da rua. Na calçada do lado de cá um pedestre vai atravessar a avenida. Não é o vigia, está muito magro. É o padeiro, o velho agora o vê perfeitamente. Vai à parada, o corpo mantém certa distância, mas olhos não perdem de vista a desgastadas rosas. As figuras em baixo do prédio em frente se movem porque já vem o ônibus que as levará.
            O veículo se vai, e o sol já se levanta um pouco mais alto. Ele coloriu o horizonte com muitas cores entre o cinza, o azul e o amarelo que não sei os nomes. É hora de o velho descer e das pessoas se levantarem. As mulheres primeiro; manda o ditado e os homens seguem. Depois sairão à rua elas, seus filhos e maridos para fazer seus dias. Talvez eles digam: que velho doido esse que amanhece na laje, não faz nada o dia todo e mal fala. O velho também pensa nessas pessoas e em tudo quanto fazem. Fazem, sonham, querem, vão, perdem, esquecem.  Esquecem ou não querem lembrar que um dia ficarão como ele: sentados, acompanhado passivos o correr do Sol para um novo dia.

João Gilberto Saraiva.
(Foto: Mañana, Gustavo Gabriel)

11 Setembro 2009

Aviões desviam de rota e mudam o mundo


Vinha para casa no ônibus como sempre fiz e notei algo diferente na cidade. As pessoas se aglomeravam em frente aos televisores numa manhã de terça-feira de um ano impar, não poderia ser Copa do Mundo. Uma criança de farda branca e bolsa sentada na última cadeira do coletivo; sou eu menor e sem barba, mas com o mesmo olhar de quem quer absorver o mundo. Chegando ao lar vidro os olhos na pequena televisão que me mostraria algo sem precedentes na história.

Um avião grande se choca num grande prédio. Um avião grande se choca em um grande prédio nos Estados Unidos. As informações chegam dispersas, o certo nos primeiros 15 minutos é que um avião comercial grande entra pelas janelas fechadas de imenso prédio em Nova York em todos os ângulos possíveis de se filmar. Pergunto a minha mãe o que havia acontecido, ela disse em poucas palavras que era um atentado terrorista. Poderia ter usado uma, dez mil ou nenhuma palavra, com 12 anos eu não entenderia jamais a dimensão daquilo que era exibido em minha TV 14 polegadas.

O ego da maior potência mundial havia sido ferido por alguns homens dentro de aviões comerciais. O que vinha pelo tubo do televisor não era dessa vez um soldado americano matando mil “vietcongs” e sim alguns mulçumanos que em duas cajadadas matavam mais de 3 mil civis no coração comercial dos norte-americanos. Em outra frente esses fanáticos deram suas vidas e a de outros para chocar-se também contra o Pentágono, o centro da defesa do país que julgávamos o mais bem protegido.

Nos enganamos ao pensar que alguma dessas coisas eram impossíveis de acontecer, mas acertamos quando pensamos que existiria uma resposta. A nação que mais investe em armas no mundo não buscou alternativa de paz, buscou vingança nas terras afegãs. O estado que perdeu duas torres, 4 aviões, cerca de 3 mil vidas e a ilusão da segurança destruiu as sobras já carcomidas pela URSS de um país entre o Irã e o Paquistão em busca de um homem que só foi achado estampado nas máscaras de foliões no carnaval seguinte. A localização de Osama bin Laden é uma incógnita até para os donos dos melhores telescópios e radares do mundo.

Os homens que desviaram as rotas dos aviões impostaram o medo nos estadunidenses. Agora a vigilância seria muito maior, e pagariam por isso até os imigrantes que legalmente ou não tentam uma vida melhor na terra do Tio Sam. O medo confundiria claustrofóbicos com terroristas, na terra da rainha um brasileiro de casaco pareceria então com um homem bomba em potencial. O medo é uma chave que apagou a vida, diria uma música de Lenine.Passados então sete anos nada mudou, o televisor, as cadeiras, a estante, a localização e o telefone de minha casa continuam os mesmos; só o sofá, eu e o mundo mudamos.

João Gilberto Saraiva, sob o signo de ontem.

(Texto escrito em 2008)

30 Julho 2009

Olhos de mar


O sinal regula o movimento de carros invisíveis. Sem olhar nem para o sinal nem para os lados ela atravessa a avenida vazia. O sol naquele horário deveria castigar as calçadas e pedestres, mas as poças denunciam nuvens nubladas. Calça jeans e blusa de lojas de departamentos enquadram nossa figura na paisagem urbana. Lá vem pela rua de pequenas lojas com grades mal levantadas, são pálpebras de quem acaba de acordar da sesta do almoço. Enquanto anda apressada reflete sobre a ligação que recebera a pouco e procura não achar o maço para garantir que o deixou em casa. Prestando atenção a fisionomia, não esbanja um sorriso largo mas pelo menos não parece estar triste, a face denota impaciência e figura algum medo.

Os tênis azuis molham os degraus enquanto as pernas sobem a escada do pequeno prédio. Três andares, dois quartos e uma sala-cozinha cada. Em frente à porta 202 param os tênis gastos da jovem. A mão já é de casa não toca campainha quebrada, bate duas vezes rápido na porta. Uma pessoa de dentro reconhece a visita esperada e destrava os cadeados. Os olhares se cruzam a primeira vez naquele dia nublado de um ano par e de vidas impares. Ela acha o que já esperava, os olhos de cor de café com leite. Olhos velhos de marujo, vermelhos e apertados, que por vezes encontram o brilho de uma criança nova. Globo ocular que ela sabe ser capaz de vestir ou despi-la quando o quiser, porque já sabem da força de seu feitiço.


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O jornal anunciou e as pessoas que passaram o dia na praia comprovaram que aquele era um domingo de sol. Sábio é o sol, que todo dia antes do trabalho toma um banho de mar. Para a maioria dos homens isso não é possível por isso o banho de mar é um prazer fora da rotina. Lá está ela sobre a tanga e sob o coqueiro pensando nas gotas d’água a escorrer com ajuda do vento da pele queimada dele. O foco vai melhorando com a aproximação, ele dá três pulinhos e senta do lado esquerdo dela. Toda vez que deságuam no oceano, seus olhos recuperam um brilho difuso. Sinto cheiro de cigarro, ele diz. Ninguém é perfeito, ela responde cortante e emenda mudando de assunto: quem vamos chamar pra sair hoje?Baixinho, quase a tocar o ouvido ele imita a voz dela: ninguém... é perfeito não? Os rostos colados então esboçam pequenos sorrisos.

E se começamos num sinal agora chegamos em outro. Aquela resposta afiada passou despercebida como uma tosse. Essa só ganhará importância na memória depois de sabermos que tal fulano morreu de tuberculose. Pensando nisso estava ele até que alguém bateu duas vezes na porta. Através do olho mágico da porta reconheceu quem era a visita. Abriu e se deparou com olhos que quase nada mudaram nesse tempo. Uma ansiedade se move dentro dele. O que tem de especial naqueles olhos castanhos dela? Ele não sabe. O olhar aprendeu com o cinema, não explica, seduz.


João Gilberto Saraiva, sob o signo do mar.

(Foto: Gustavo Gabriel)

27 Junho 2009

Pequeno tratado sobre o amor

Quando a conheci não estava solteiro. Cruzei a ante-sala e notei uma menina bonita, eu mal passei e ela já foi embora. Depois a conheci: bochechas grandes, 4 anos a menos, cabelos negros, corpo esbelto. E quase todo fim de semana, estávamos nós naquela mesma ante-sala reclamando da internet ruim, varrendo o chão, conversando besteira até o fim do meu expediente. No meu trabalho um dia ela estava acompanhada, saio e fecho a porta. O som falhou, o ar parou, o coração pergunta se pode voltar a bater, o cérebro pergunta: o que foi? Nada, apenas um buraquinho quase invisível de um lado e do outro do corpo.
Nós somos feitos de água e areia, basta a primeira água para desfazer a coragem. A onda da insegurança derrubou três vezes o castelo da areia das vontades, mas não há como fazer um buquê sem cortar as rosas. A areia e a água formaram o barro que foi cozido por mãos divinas. Estava solteiro, era a hora de dizer: Te quiero! E se querer é poder, eu já devia estar a caminho. Lá ia eu para alargar aquele furo pouco abaixo do pescoço, ou pelo menos tapá-lo de vez.
O amor é mesmo uma erva daninha, nasce de onde menos se espera. E quem passa, quando presta atenção, se pergunta: como ela pode ter nascido ali? Sempre tem quem queira cortar o mal pela raiz, mas por mais que se lute, que se corte, não se consegue acabar. Num canto despercebido entre o cimento da calçada, cresce a plantinha que não precisa mais do que duas gotas de sol e uma de água.

João Gilberto Saraiva, sob o signo dela.