O sol é antigo, não acha graça nos computadores e televisores, mas se diverte em ver o quanto os homens gastam seus segundos de vida pendurados neles. As invenções humanas dão eco à contradição dos seus desejos. Existem as de fazer caminhos e a de destruí-los, as de montar sonhos e outras de desmontá-los, as de dar vida e muitas outras de tirá-la. A humanidade em tudo mexe, a nada dá sossego, obstinada em fazer do mundo sua imagem e semelhança. Se eu prestar atenção, posso escutar o rumor do seu sonho de um dia me conquistarem, em mim ficarem sua minúscula bandeira, estandarte desse estranho bloco de carnaval. São mesmo formigas audaciosas, essas as quais observo. 27 Novembro 2009
XIX - O Sol
O sol é antigo, não acha graça nos computadores e televisores, mas se diverte em ver o quanto os homens gastam seus segundos de vida pendurados neles. As invenções humanas dão eco à contradição dos seus desejos. Existem as de fazer caminhos e a de destruí-los, as de montar sonhos e outras de desmontá-los, as de dar vida e muitas outras de tirá-la. A humanidade em tudo mexe, a nada dá sossego, obstinada em fazer do mundo sua imagem e semelhança. Se eu prestar atenção, posso escutar o rumor do seu sonho de um dia me conquistarem, em mim ficarem sua minúscula bandeira, estandarte desse estranho bloco de carnaval. São mesmo formigas audaciosas, essas as quais observo. 15 Novembro 2009
Carta aos amigos
PS: Tinha trocado os nomes de alguns autores dos blogs, mas já resolvi a confusão.
29 Outubro 2009
Olhos de mar - O início
29 Setembro 2009
Alvorada
11 Setembro 2009
Aviões desviam de rota e mudam o mundo
Vinha para casa no ônibus como sempre fiz e notei algo diferente na cidade. As pessoas se aglomeravam em frente aos televisores numa manhã de terça-feira de um ano impar, não poderia ser Copa do Mundo. Uma criança de farda branca e bolsa sentada na última cadeira do coletivo; sou eu menor e sem barba, mas com o mesmo olhar de quem quer absorver o mundo. Chegando ao lar vidro os olhos na pequena televisão que me mostraria algo sem precedentes na história.
Um avião grande se choca num grande prédio. Um avião grande se choca em um grande prédio nos Estados Unidos. As informações chegam dispersas, o certo nos primeiros 15 minutos é que um avião comercial grande entra pelas janelas fechadas de imenso prédio em Nova York em todos os ângulos possíveis de se filmar. Pergunto a minha mãe o que havia acontecido, ela disse em poucas palavras que era um atentado terrorista. Poderia ter usado uma, dez mil ou nenhuma palavra, com 12 anos eu não entenderia jamais a dimensão daquilo que era exibido em minha TV
O ego da maior potência mundial havia sido ferido por alguns homens dentro de aviões comerciais. O que vinha pelo tubo do televisor não era dessa vez um soldado americano matando mil “vietcongs” e sim alguns mulçumanos que em duas cajadadas matavam mais de 3 mil civis no coração comercial dos norte-americanos. Em outra frente esses fanáticos deram suas vidas e a de outros para chocar-se também contra o Pentágono, o centro da defesa do país que julgávamos o mais bem protegido.
Nos enganamos ao pensar que alguma dessas coisas eram impossíveis de acontecer, mas acertamos quando pensamos que existiria uma resposta. A nação que mais investe em armas no mundo não buscou alternativa de paz, buscou vingança nas terras afegãs. O estado que perdeu duas torres, 4 aviões, cerca de 3 mil vidas e a ilusão da segurança destruiu as sobras já carcomidas pela URSS de um país entre o Irã e o Paquistão em busca de um homem que só foi achado estampado nas máscaras de foliões no carnaval seguinte. A localização de Osama bin Laden é uma incógnita até para os donos dos melhores telescópios e radares do mundo.
João Gilberto Saraiva, sob o signo de ontem.
(Texto escrito em 2008)
30 Julho 2009
Olhos de mar

O sinal regula o movimento de carros invisíveis. Sem olhar nem para o sinal nem para os lados ela atravessa a avenida vazia. O sol naquele horário deveria castigar as calçadas e pedestres, mas as poças denunciam nuvens nubladas. Calça jeans e blusa de lojas de departamentos enquadram nossa figura na paisagem urbana. Lá vem pela rua de pequenas lojas com grades mal levantadas, são pálpebras de quem acaba de acordar da sesta do almoço. Enquanto anda apressada reflete sobre a ligação que recebera a pouco e procura não achar o maço para garantir que o deixou em casa. Prestando atenção a fisionomia, não esbanja um sorriso largo mas pelo menos não parece estar triste, a face denota impaciência e figura algum medo.
Os tênis azuis molham os degraus enquanto as pernas sobem a escada do pequeno prédio. Três andares, dois quartos e uma sala-cozinha cada. Em frente à porta 202 param os tênis gastos da jovem. A mão já é de casa não toca campainha quebrada, bate duas vezes rápido na porta. Uma pessoa de dentro reconhece a visita esperada e destrava os cadeados. Os olhares se cruzam a primeira vez naquele dia nublado de um ano par e de vidas impares. Ela acha o que já esperava, os olhos de cor de café com leite. Olhos velhos de marujo, vermelhos e apertados, que por vezes encontram o brilho de uma criança nova. Globo ocular que ela sabe ser capaz de vestir ou despi-la quando o quiser, porque já sabem da força de seu feitiço.
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O jornal anunciou e as pessoas que passaram o dia na praia comprovaram que aquele era um domingo de sol. Sábio é o sol, que todo dia antes do trabalho toma um banho de mar. Para a maioria dos homens isso não é possível por isso o banho de mar é um prazer fora da rotina. Lá está ela sobre a tanga e sob o coqueiro pensando nas gotas d’água a escorrer com ajuda do vento da pele queimada dele. O foco vai melhorando com a aproximação, ele dá três pulinhos e senta do lado esquerdo dela. Toda vez que deságuam no oceano, seus olhos recuperam um brilho difuso. Sinto cheiro de cigarro, ele diz. Ninguém é perfeito, ela responde cortante e emenda mudando de assunto: quem vamos chamar pra sair hoje?Baixinho, quase a tocar o ouvido ele imita a voz dela: ninguém... é perfeito não? Os rostos colados então esboçam pequenos sorrisos.
E se começamos num sinal agora chegamos em outro. Aquela resposta afiada passou despercebida como uma tosse. Essa só ganhará importância na memória depois de sabermos que tal fulano morreu de tuberculose. Pensando nisso estava ele até que alguém bateu duas vezes na porta. Através do olho mágico da porta reconheceu quem era a visita. Abriu e se deparou com olhos que quase nada mudaram nesse tempo. Uma ansiedade se move dentro dele. O que tem de especial naqueles olhos castanhos dela? Ele não sabe. O olhar aprendeu com o cinema, não explica, seduz.
João Gilberto Saraiva, sob o signo do mar.
(Foto: Gustavo Gabriel)
27 Junho 2009
Pequeno tratado sobre o amor
Quando a conheci não estava solteiro. Cruzei a ante-sala e notei uma menina bonita, eu mal passei e ela já foi embora. Depois a conheci: bochechas grandes, 4 anos a menos, cabelos negros, corpo esbelto. E quase todo fim de semana, estávamos nós naquela mesma ante-sala reclamando da internet ruim, varrendo o chão, conversando besteira até o fim do meu expediente. No meu trabalho um dia ela estava acompanhada, saio e fecho a porta. O som falhou, o ar parou, o coração pergunta se pode voltar a bater, o cérebro pergunta: o que foi? Nada, apenas um buraquinho quase invisível de um lado e do outro do corpo.




