30 Novembro 2008

Eu, a pedra e a menina


A menina caminha levemente pelo corredor a meia luz; o desequilíbrio entre a luz e o escuro forma uma penumbra que mal permite ler as palavras no interior da caverna. Palavras é o que ela imagina serem, pois entre os milhões de rabiscos nas paredes e teto, só alguns estão na sua língua, outros nem parecem letras. Ela segue seu passo pluma, temeroso, porém contínuo, seu medo e desejo de ver o fim caminham juntos e os três avançam pelo chão molhado. Poucos metros, uns 10 passos e não sei quantos palmos ela percebe o corredor dilatar, o nariz e os pelos sentem o frio. Num espaço maior e sem forma, porque o escuro delineia o nada, ela vê a parca luz que reflete uma grande pedra escura. No outro escuro sentimos os últimos passos, um, dois, três. Os braços da menina levantam pesadamente cortando a ausência de luz. De olhos fechados, duas vezes cega, ela toca a grande pedra negra e sente todo calor do mundo. Calor de todos os fornos, de toda chama, de toda lava derretida, mas suas mãos não queimam. O ser humano é mais quente que todo o mundo.


João Gilberto Saraiva 

7 pitacos:

GABRIEL, gustavo disse...

Ainda me sinto um vulcão.
^^

Ádlei Carvalho disse...

Belíssimo texto, amigo!

Parabéns!

Eduardo Martins disse...

Nós seres humanos, de tdos povos e línguas (ao seu jeito), somos fontes de grande afeto, qdo queremos logicamente. Até o autor se inclue nesse balaio "Eu, a pedra e a menina". Infelizmente, temos q estar numa fundura p/ perceber isso ou não... alguns são mais aguçados. Seus textos são interessantes curtos e profundos. Lembrando q o texto ganha diversos significados após findado e divulgado pelo autor.
Até dia 14 em meu blog.
abraço

Ádlei Duarte de Carvalho disse...

Botei um link da sua página no meu blog. Espero que não se sinta ofendido.

Abraços.

João Gilberto disse...

Sim senhor, fico o fendido não. Vou por um link do seu blog nesse aqui também.

Até mais escritor.

blackcocada disse...

Avance Seu Saraiva, temos conto novo no gancho. O nome da peça é *No "suburbiu" de mim*. Te aguardo.
abraço

Nathi disse...

Pedra, menina...me lembra O Teatro Mágico.
Como pode sermos 70% de nossa composição ser água e ainda aredemos como fogo?