A cadeira de balanço se move suavemente no mormaço, acompanhando pernas habituadas à tarefa. Regendo o silêncio da sesta, o ponteiro menor se aproxima cautelosamente do número 2. Apenas os peixes fazem companhia ao rio escuro, até os pequenos barcos descansam na margem. – Ninguém antes das 3, pensa o velho. Duas pernas pousam no tamborete e os olhos castanhos se escondem atrás das pálpebras cerradas.
Lá estava ela e uma vizinha, tomando café com tapioca na mesa velha. A senhora de olhos miúdos conversa animadamente. Ele reconhece a casa, lá está o velho fogão de carvão, a santa ainda não tão desbotada. Sentada naquele mesmo tamborete onde ele repousa suas pernas, falava de um menino curioso, que com três anos nunca tinha visto uma meia. Contava que quando o irmão mais velho voltou a primeira vez deixou os sapatos do lado do pote d’água. Ria dizendo que encontrou o piá com a meia branca na boca, achando que era tapioca.
Uma batida leve acorda-o. Os olhos castanhos aparecem: – Boa tarde. – Boa. Um viajante encostado no balcão lhe pede um maço de cigarros. O senhor lhe entrega coçando a barba branca. O homem põe o maço no bolso da camisa e entrega uma nota. Não tem sotaque daqui, deve ser mais um viajante de passagem. – Mais alguma coisa? – Não, já é hora de ir. – Mas já vai? Pergunta o velho separando umas moedas para o troco. O viajante aponta o relógio na parede, ponteiros imóveis, o menor nem sequer chegou ao dois. O velho respira fundo: – Vou só aqui rápido, ta certo? O homem de camisa branca na entrada da venda: – Ok.
Uns instantes depois o senhor reaparece com uma sacola. Descem até o rio e entram num barquinho que o velho não vira chegar. – O que tem na sacola? O velho lhe mostra o conteúdo. –Uma camisa? – Sim, lá pode ser frio. O mais novo esboça um sorriso. Antes que surja outra pergunta vem uma resposta: – As meias e sapatos são presentes para minha mãe. O velho pega o maço e um isqueiro que o outro lhe ofereceu. O barco segue sem fazer barulho, deslizando sem deixar rastros nas águas escuras do rio.
João Gilberto Saraiva.
(Revisão: Arthur/Nathi)
18 pitacos:
Vai embora.
Talvez nem haja onde chegar com esse rio.
"poeta por acaso"
Preciso de uma carona num barco desses.
Eu preciso de meias.
E eu de sapatos! xD
Já li coisas que me levaram a esta mesma atmosfera mágica.
Você conseguiu me levar até ela com poucas linhas, desde a primeira.
Aproveite as férias escrevendo que eu aprovetarei lendo.
Inté doutô
Me lembrei de São João da Barra, aqui no Rio. Uma viajem gostosa que fiz. Agora, com a sua, 2 viajens.
Abração
Não sei pq mas me lembrei logo de "Deus é Brasileiro"
Adoro seus textos regionais!
(Ah, mudei de url, perdi seguidores, comentários e tudo mais. Mas foi por um bom motivo. Poderia, você, reforçar seus votos, digo, voltar a me seguir? =D Desde já agradeço!)
E eu me perdi nesse tempo que parece ter esquecido de passar...
Abraços, querido e muito obrigada pelas suas visitas especialissimas lá no Sentimentalidades
maravilhosas as fotos, os textos...
seguindo...
Gostei de teu blog e da forma como tu escreves...Quase não pisquei.
Desejo-te inspiração diária.
Abraço, seguindo aqui.
Estou no www.anaconfabulando.blogspot.com
Cara nova aqui?!
Quero TEXTOS NOVOS!
[se não vou parar a Paulista...olha que eu sou doida!]
beijooos
"Poesia uma hora dessas?" Mesmo que em prosa...
João!!!!
Gosto tanto das tuas participações no meu blog.
Melhor, só qdo eu ler novas linhas por aki... rs
bjs
Mônica
Eu gostei dessa postagem!
O rio parece interessante.
Como chego nele?
Adorei, dotô!
Vimaqui agradeceravisita eprometo voltar mais vezes por aqui. Gustavo semprecomenta comigoa respeitodo que vc escreve!
Um abraço!
Bah, bem legal o blog.
Há braços!!
Muito bom o texto. O lance da meia na boca...espero que não tivesse chulé.
Há braços!
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