Perdeu-se, numa folha rasgada e ainda em branco, a hora e o dia no qual ele fez a sua descoberta. Não digo o nome, mas não se chamava nem Pedro nem Cristovão, ele não alargou os mapas. Não sendo Isaac, nem Albert, também não acrescentou novos fios de lei ou desordem a ciência de seu tempo. A literatura tem desses males, por vezes os nomes encerram destinos, o que não impede de sabermos em breve o desse personagem de nome ignorado. Lá está o homem circunspecto, sentado ao pé da janela sozinho, um olho fechado e outro no seu telescópio. Não sei se o pertence, mas ele opera botões e regulagens com uma intimidade de uma avó que costura desde os tempos remotos na mesma máquina. Por vezes, os olhos se voltam para o papel quadriculado, a esferográfica tece o movimento das estrelas. É fácil, elas não correm, deve pensar alguém, e eu continuo: mas também não usam crachás com o nome, nem respondem se você perguntar: Onde estavas ontem à noite? Por isso, de forma meticulosa segue o labor.
No dia sem número algo soou na madrugada. O susto modificou o caminho de uma estrela, como se fosse ela a surpreendida pelo som na campainha. - Quem será a essa hora? Desce as escadas para descobrir e por essas excentricidades da literatura, outros diriam da vida, não há olho mágico na porta do homem do telescópio. Ele tem de abrir a porta e por a cabeça para não ver ninguém, nem lua, nem gente além dos postes cansados da luta contra a noite. - Deve ter sido no vizinho. Enquanto sobe as escadas, pensa no seu erro, errare humanum est, e no seu remendo. Quando chega ao aposento do telescópio, outra surpresa, o equipamento não está apontado para o céu, e sim na direção do chão da calçada em frente à janela. Ele se aproxima com certa cautela, a experiência avisou: isso não parece obra do acaso, as engrenagens do telescópio são duras. Já sentado na cadeira, as mãos verificam se algo ocorreu na máquina, nada de errado, apenas ela aponta para onde não devia. Os olhos ajudavam as mãos, e por descuido, miraram na mesma direção para onde as lentes de caçar estrelas apontam. Foi o momento dos ponteiros esquecidos onde ele fez sua descoberta.
Não sei exatamente o que estava abaixo daquela janela, mas sei que a estrela não teve seu caminho remedado e nem sequer o telescópio se voltou para os pontos no céu. O homem juntou os cadernos e livros da mesa e guardou-os na mesma estante onde procurou um velho caderno escondido entre outros tantos livros. Versos antigos foram ressuscitados em tom de consagração eucarística, releu todo o caderno antes do fim da madrugada. Até o Sol ascender aos céus como um Jesus num milagre cotidiano, as luzes do seu quarto não apagaram. Nessa manhã, uma caixa grande foi deixada na porta dos fundos da biblioteca, repleta de livros de astronomia, Copérnico, Kepler, Galileu e outros. A bibliotecária viu o doador secreto partindo, trajava uma roupa de tons alegres e quando ele olhou para trás sorriu para ela. Lá vai o homem da gravata florida.
(Diego Rivera, Vendedora de Flores, 1942)
João Gilberto Saraiva
(Revisão: Arthur Duarte)
(Revisão: Arthur Duarte)

12 pitacos:
Genial!
Seria uma estrela perdida, caída?
Vejo várias interpretações nesse texto. Quando vc vai publicar seu livro?
Como sempre, muito bom com as palavras!
Ainda tem um telecóspio nessa casa?
Concordo com a Vitória, vejo muitas interpretações nesse texto!
Parabéns moço, e vê se num deixa seus fãs esperando tanto tempo por outro texto! =)
Se a internet fosse um Universo, nós, escritores-blogueiros seríamos astros. Porém, dentro da categoria astros teríamos as estrelas, os planetas e os satélites. Mas, e o João Gilberto seria o quê? Num sei, ele não usa crachá... Mas precisa???
O cientificismo, o ofício, a labuta, às vezes, nos tira a poesia. Temos que desfocar!
Gostei dos toques Jorge Benianos: errare humanun est e a gravata florida. Seria o conto todo uma grande inspiração em seus temas?
Abração
Vejo um livro há caminho! hehehe Rivera... maravilhoso!
Fiquei com medo e inveja ao terminar de ler isso. E com receio também, afinal não gostaria de largar tudo e usar uma gravata florida.
Foi acaso ou intensional, o fato de citares tantos cientistas e no final, apenas um "Jesus", como representante da 'religião'?
Há também o fato dos versos superarem a ciência![...]
Seria o texto uma trajetória? Uma evolução interna de um homem, ou uma involução?
Hum...faz pensar.
Mas como as engrenagens do telescópio, suas palavras insolúveis são duras, não acredito no acaso.
beijos e \o/ João escreveu!
Obrigada pela visita! Mas, ohh, ando sem inspiração...
Esse trecho de Shakespeare está em "Much ado for nothing".
Bjs
Sempre achei gravata florida uma coisa muito gay. (Sem preconceito, caras e bocas).
A descoberta as vezes está fora de nossos próprios armários internos, não é? Resta sair dos mesmos e descobrir.
O acaso anda me presenteando bastante ultimamente...
Clicando de blog em blog, cheguei aqui...
Adorei sua prosa poética ou sua poesia um tanto prosa...
Já passei por blogs incríveis nesta empreitada de hoje... e a satisfação só aumenta...
Aguardo sua vista ao Luz, tá!
Não demora!
Abraço!
Comprei um telescópio metafísico-linguístico desses só pra ver se vejo o que João viu. Ah, e uma gravata florida pra acompanhar.
Hey carinha!
Cadê tu?!
E suas palavras que ainda não encontraram o solvente correto..?
"Lá está o homem circunspecto, sentado ao pé da janela sozinho, um olho fechado e outro no seu telescópio".
Imaginei a cena perfeitamente. até fechei o olho. a descrição de cada gesto, da cena como um todo sempre bem elaborada. Vc é um escritor com muita habilidade. gostei. vou vir aki mais vezes dar uns pitacos. ^^
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