As luzes dos carros vestem de
amarelo a penumbra das ruas para no outro instante sumir, clarear e novamente
sumir, lá se vão os homens retornando do trabalho. Os veículos passam, fica a
fumaça para os pedestres que se aventuram na calçada da grande avenida e na
sarjeta se amontoam e misturam as profecias sobre o apocalipse dos homens e dos
produtos de mostruário em suaves prestações a perder de vista. Alguns dos
caminhantes ingressam no bar, são clientes de sexta-feira que se acomodam junto
aos de todos os dias, e apenas um homem continua andando na calçada. Ele passa
pela banca onde as oscilações da bolsa dividem espaço com o casamento dos
famosos e o desastre, o homem para e olha. Os olhos atravessam as notícias e
as palavras cruzadas e se colocam nos fundos do ambiente.
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| Foto: Passarinhar, Gustavo Gabriel (Flickr) |
Eles agora são o próprio revoar rebelde dos
pássaros na alvorada e até barulham como tal, mas não possuem asas. Essa é uma
lição de sabor amargo que alguns destes meninos que saem correndo da escola
após o sinal talvez aprendam um dia a embrulhar em veludo, mas essas são coisas
para pensar amanhã, eles apenas correm para algum lugar, qualquer lugar fora
dos muros brancos da escola. Após a euforia dos primeiros metros os pássaros
desaceleram e vão pousando em lugares diversos: nos carros, no velho cajueiro, na
praça, na gangorra e alguns planam para o outro lado da rua. No ponto de ônibus
eles se juntam ao velho que vende picolé e as demais barrigas que esperam os
veículos que os levará ao almoço . Não por coincidência, um homem surge na
esquina empurrando um carrinho que também pode trazer acalanto gelado para
antes do almoço. A farda e o guarda-sol denunciam que não são os mesmos picolés
do velho e alguns passos depois já é possível vislumbrar o que há na placa entre
o guarda-sol e recipiente gelado dos produtos, lá está o grande bloco marrom
que sugere ser maciço de chocolate como imaginamos as barras serem de ouro. A
frase abaixo acrescenta sobre recheio de sorvete de baunilha e creme e o valor
escrito ao lado não importa ao menino. Um número qualquer acompanhado de zeros
ou não na sua direita ou esquerda é sempre intangível para quem sempre tem
zeros nos bolsos, uma carteira de estudante na mão e o bilhete para casa na
outra.
Ele reconhece que lá na frente vem
o ônibus que o levará para casa e tem de agir rápido. Pede um picolé de
chocolate e entrega o bilhete da passagem estudantil, transformado em moeda de
escambo, ao velho. Com o picolé na boca, as duas mãos se apoiam na catraca para
um escorregar de gato, sem bater a cabeça nem tocar a farda no chão porque para
os dois casos não há para amanhã outro substituto. Pela avenida se vai o menino
que imagina ser o seu picolé aguado de achocolatado caseiro ser o fabuloso
picolé de chocolate do carrinho de sorvete.
- Pois não? A mão aponta para a
parede dos fundos da banca onde mil coisas disputam centímetros de espaço e
atenção. Uma frase se coloca na boca, mas antes que saia a primeira sílaba é
emudecida. - Pois não? O homem detrás de balcão repete a pergunta. O indicador
baila entre revistas, propagandas, cigarros, jornais velhos, imãs de geladeira etc
procurando alguma coisa. Está ali, é o que o dedo apontado para o freezer quer
dizer. - Um picolé, a boca complementa. O ar gelado sobe quando o vendedor abre
a tampa do aparelho e no segundo que o vendedor se prepara para listar as
opções o homem já escolhe: - De chocolate. O vendedor informa quanto custa o
picolé e o homem retira moedas do bolso. Ele é aguado e doce, de achocolatado
caseiro, não é muito bom, mas é o único onde ele sentirá o sabor da liberdade dos pássaros, das
corridas até o ponto e do ônibus até em casa.
(Revisão: Arthur Duarte)

4 pitacos:
Voltou, quase no fim do ano, com um conto lindo.
Sabe que eu sempre me frusto quando compro picolé de chocolate e ele vem aguado? Mas é chocolate né? a gente acaba comendo.
Então o dito que era novo, já estamos usando. E ele sempre há de ser o melhor - é o nosso desejo, dito e re-dito a zero hora.
Abraços, abrços, Gilberto.
Feliz ano novo. E muitas linhas para compartilharmos nos proximos 366 dias.
Mônica
Oi, João.
Sabe o que eu acho?
Toda lembrança tem cheiro, gosto, ruído, e apesar disto às vezes machucar, trazer sensações que queríamos ter de volta e não podemos, é muito bom saber que nossa vida não é um livro de "1000 coisa que vc deve fazer antes de morrer".
Sou, porque só posso falar por mim, um saco fedido e cheiroso ao mesmo tempo, de saudade.
Eu sinto o passado nos meus ossos, o presente nos dentes e o futuro nos pés.
Meus olhos, infelizmente...não se decidem com qual dos três quer ficar, então me confundo muito.
Mas é bom saber que ainda tem gente que carrega o pretérito na língua aguçada, que se enxágua na saudade de um simples picolé.
"são clientes de sexta-feira que se acomodam junto aos de todos os dias"
Adoro te ler, estava sentindo falta.
Obrigada pela visita, sempre bem-vinda, é claro, ao meu blog menos visitado que amo muito!
Um grande abraço, querido escritor!
A Doutora.
O fantástico que toca a realidade nas poucas moedas para o picolé que fazem homens virarem meninos que viravam pássaros é sublime, doutor.
Axé & Saravá
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